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Voodoo Child The End Of Everything LP – CD Trophy Records

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Sereias A Odisseia de Carlos Bizarro

Ao acabar de ouvir o disco as últimas poeiras do seu perfume assentam em casco o ferro do navio; lá na encosta juntam-se os juncos a erigir uma parede cheia de brechas donde diverge a música. Decide escrever uma carta: “ Receio perder a memória da nossa harmonia e por isso te escrevo. O barco está parado no estreito (os barcos não sabem parar dizem-me); ninguém passa mas todos se movem. Lá ao longe noutro porta-contentores alguém esteve a manhã toda a gesticular com os braços formas de espiral, de olá, de aguarda, de até já, de caixas de papelão. Não sabemos ainda do que se trata mas acho que nos vamos entender… Olha recebi faz dias um ficheiro com o álbum novo dos Sereias. Chama-se Odisseia de Carlos Bizarro. Não percebi bem o nome mas tenho um companheiro aqui é guindasteiro e se chama Carlos também… ele ouviu um pouco também… ainda não percebi bem se gostou, diz que não é bem a cena dele. MAS tu tens de ouvir!! Vais arrepiar-te!!! É intenso e dá-me alento. Deves gostar… No princípio fez-me lembrar a tua voz com que contas os sonhos dos lugares onde danças e dizes que ris muito. A primeira música é enorme e intensa como os nossos encontros. Daqueles que às vezes rebentam em discussões até não nos conseguirmos manter mais de pé (lembras-te de discutirmos sobre idoneidade?) Sabes, acho que as personalidades também explodem. Como foguetes, umas atrás das outras. As músicas a seguir para mim falam disso e de termos de ser autocríticos antes e depois de sermos críticos, e como isso tem efeitos em toda a gente… é assim um rock bem puxadinho daquele que tu gostas (o baixo e bateria na terceira música são incríveis), físico mesmo; ainda fiz moche sozinho na cabine enquanto os mísseis cruzavam os céus. Só me lembrava de estar naquele bar na esplanada onde houve porrada… e que ainda levaste uma chapada por tabela, foi horrível. Fiquei mesmo irado e envergonhado de não bater em ninguém nessa noite. Mas que podia fazer? O instinto confunde-me. Tenho pouco tempo para te enviar isto porque o capitão racionou os dados de comunicação (como ele racionou os dados, passamos mais tempo a jogar cartaz). Tens mesmo de ouvir a música sobre a extrema direita e os fachos! E tens de mostrá-la a toda a gente! Fodasse é mesmo preciso pará-los. Tens feito mais tatuagens? A semana passada fiz uma, foi o Gilbert Keith (mas a gente chama-lhe Goalkeeper, ele arruma os contentores), ele tem uma máquina de tatuagem sem fios e fiz uma pena, daquelas de escrever que eu sempre disse que gostava. Para ele é um símbolo de liberdade sabias? Mas infectou. Ontem fizemos uma piada sobre ter infectado porque ainda não somos livres. Falta a revolução senão isto é sobreviver por sobreviver. Estivemos a noite toda na caserna do guindaste lá em cima a beber, estava uma aragem de calor e o som das explosões ao longe não nos deixava dormir. E nós lá em cima contentes com os copos, no cimo daquele monte de ferro (o guindaste está um pouco velho e causa-me vertigens), quase caímos a dar um abraço (por falar nisso tens mesmo de ouvir a música dos Sereias com o vocalista da tua banda favorita, não me lembro do nome dele desculpa, mas vais adorar de certeza! É ganda guitarrada!) Foi aí que ele reparou que a tatuagem infectou. Preciso de um creme mas agora só quando cair em terra. Daqui conseguimos ver as luzes de uma cidade, laranjas como cabelos em chamas reflectidos no azul chapado do mar e uma luz vermelha,tinta, alta, que deve ser do porto. Faz lembrar aquele filme que vimos juntos em tua casa do Fassbinder, meio louco, que era passado no bar do porto e no barco. Tenho saudade da cidade. Como está ela? Estou cansado da vida de moço de convés. A penúltima música do disco deles faz me lembrar essa cidade, não sei, os trompetes misturados com o orgão, alguma coisa ali, as vozes na rua, a possibilidade de dizer alguma coisa boa a alguém… sabes do que estou a falar. É triste acho eu essa parte. É NOIR. E depois aquilo acaba a criar uma enorme tensão na última música, ele a berrar Satã como se me fosse empurrar realmente para o mar de chapa, parece um gospel do demónio, não sei como explicar… até estranho ficar essa no fim do álbum, como algo que está para arrebentar mas ainda não acabou o rastilho… adoro o baixo dessa música, temos de ir ver ao vivo, espero voltar, espero que termine esta confusão, que se passe no estreito como o fio pelo buraco da agulha, de pôr termo a esta viagem ou de tirar uns dias disto antes que estourem com o mundo… Se não te vir de novo não lhes perdoo meu amor! P.S. — Espreita pela fresta enquanto a brisa te eleva as repas. Se vires passar o Carlos Bizarro sai! Vai! Beijo. Ormuz, Março 2026 Francisco Babo
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